Figura conhecida nas ruas de Patos de Minas, Paulino de Deus Godinho, popularmente chamado de Paulino Doido Paiakan, construiu ao longo de décadas uma trajetória marcada pelo ativismo social, pela defesa dos serviços públicos e pela atuação direta junto à população mais vulnerável. Seu apelido, longe de ser pejorativo, tornou-se símbolo de resistência e consciência social no município.
A origem do nome “Paulino Doido Paiakan” remonta ao período em que surgiram discussões sobre a possível privatização do Hospital Regional de Patos de Minas. Inconformado com a situação, Paulino decidiu protestar de forma diferente: criou uma bicicleta adaptada, carregada de objetos simbólicos, entre eles um boneco que representava trabalhadores e pais de família que, segundo ele, sofriam com a precarização do atendimento público de saúde. O impacto visual chamou atenção da cidade e consolidou sua imagem como ativista popular.
Paulino relata que, na época, chegou a ser orientado a retirar o termo “doido” de seu nome, mas recusou. O motivo foi pessoal e profundo: o respeito à própria mãe, que enfrentou problemas de saúde mental e passou anos internada em tratamento. Para ele, manter o apelido era também uma forma de denunciar o abandono histórico das pessoas com transtornos mentais e questionar o descaso do poder público e da sociedade com essa parcela da população.
Servidor público por 40 anos e 30 dias, Paulino iniciou sua trajetória na Prefeitura de Patos de Minas ainda na gestão de Arlindo Porto, em 1984, e encerrou o vínculo durante a administração de Luiz Eduardo Falcão. Grande parte de sua atuação foi no Ceasa, onde se destacou por articular a doação de alimentos que seriam descartados para escolas, creches e entidades assistenciais. Segundo ele, ao longo dos anos, ajudou a abastecer dezenas de instituições e nunca se recusou a atender pedidos feitos em nome de crianças, independentemente da origem.
Durante a carreira, ganhou notoriedade também por intervenções diretas em situações de risco, como episódios em que se colocou à frente de veículos para evitar acidentes com crianças em vias públicas. Essas ações reforçaram sua fama e o apelido de “Paulinho Doido”, que mais tarde foi incorporado definitivamente à sua identidade pública.
A bicicleta de protesto, que pode chegar a pesar mais de 70 quilos quando montada, tornou-se um dos principais símbolos de suas manifestações. Cada peça, segundo Paulino, representa a indignação de pessoas que não tinham espaço ou coragem para se manifestar. Além da luta pela saúde pública, o veículo passou a carregar mensagens contra o uso de drogas, denúncias sociais e pedidos feitos por crianças e moradores da periferia.
Paulino também se aventurou na política institucional, candidatando-se três vezes ao cargo de vereador. Apesar de não ter sido eleito, ele considera os votos recebidos como reconhecimento popular. Em sua última campanha, chegou a ser detido por algumas horas, episódio que ele costuma narrar como prova de que “dizer a verdade, muitas vezes, incomoda”.
Mesmo após a aposentadoria, Paulino afirma que não conseguiu ficar parado. Segundo ele, a inatividade trouxe dores físicas e o fez retornar ao trabalho como servente. Paralelamente, continua realizando pequenas ações comunitárias, pedalando nos fins de semana e mantendo contato direto com moradores da cidade.
Além do ativismo, Paulino também é conhecido como benzedor, prática que aprendeu com pessoas mais velhas e que exerce sem cobrar, por considerar a atividade uma missão espiritual. Ele afirma que muitas pessoas ainda o procuram para benzeções e orientações, especialmente na zona rural.
Ao avaliar sua própria trajetória, Paulino evita se autodefinir como personagem folclórico. Para ele, o julgamento cabe à população. “Só paro quando o povo mandar”, resume. Enquanto isso, segue como uma presença marcante em Patos de Minas, onde seu nome, sua bicicleta e sua história continuam sendo facilmente reconhecidos nas ruas da cidade.
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