Crônica pra quem tem medo de amar

05/12/2016 10:37:04

Flavio Sousa


Precisava falar do sorriso dela. Não sei explicar por que, mas precisava falar do sorriso dela. Foi tão rápido, tão inesperado. Você já sentiu algo assim? Acho que todo mundo já sentiu algo parecido. Um sentimento que percorre o corpo, arde na alma e canaliza toda sua energia. Ainda tenho a imagem daquele rosto na minha cabeça. Ela não percebeu, mas eu estava lá: observando cada movimento dela. “Lembro-me que doía; olhar pra ela doía”. Foi então que fui da epifania ao tormento.

Foram noites e mais noites perturbado, tentando entender quem havia concedido aquela criatura: Deus ou o Capeta? Não sei dizer. Cada vez que aqueles olhos me fuzilavam no corredor, meu ser estremecia. Mas aquele sorriso, eu não vou esquecer. Já reparam no jeito que ela sorri? Parece convidar a solidão pra dançar. Proteger-me era urgente! Aquela mulher iria me dominar, iria transfundir o sangue dela pro meu coração e pra quê? Pra ir embora depois e me deixar escorrer amor, devagarzinho até sucumbir ao nada? Não, obrigado.

Agi em defesa de mim: tranquei meu coração numa gaiola de prata e joguei a chave fora! Esse pássaro vagabundo que trago no peito não voará jamais – pelo menos não com aquele sorriso a espreita por aí. Passei a evitá-la; tratar-lhe com desprezo. Não se pode confiar em quem tem um sorriso desses. Ainda não me recuperei da bagunça que fizeram aqui dentro da última vez, não posso deixar que outra chegue e dilacere tudo. E se for diferente? Não, melhor não pensar bobagem e seguir firme; não serei afetado. Evito pensar em como seria estar com ela; evito pensar no quanto a gente poderia ser feliz; evito pensar nas noites que passaríamos juntos; evito pensar nos carinhos que receberia, ou no chocolate-quente que tomaríamos abraçados num dia chuvoso; mas evito pensar mesmo é naquele sorriso. É melhor, afinal, iria acabar mesmo, e o que resta são lágrimas... 

                                        

Quem diria: eu que tanto defendi o amor, os sentimentos nobres, a beleza singela de estar apaixonado, hoje estou de ressaca da paixão. O sofrer talvez seja o grande motivador para tanto medo, mas duvido que seja o único fator que me impede. Os sentimentos existem porque tem de ser assim, negá-los é lutar contra a natureza humana. Já faz um tempo que não aprecio nada, apenas congelo pequenos rostos e momentos fugazes. Às vezes aparece um sorriso como o seu acaba comigo e recomeço a pensar no amor e outras drogas. Sinto-me como um paciente incurável. Minha doença me impede de amar e planta em mim uma fobia de terminar e recomeçar. Como odeio essa palavra “recomeçar”! De que me serve recomeçar se recomeçar sugere um novo fim de um ciclo que nunca acaba? Realmente tenho medo do amor e duvido muito que ela seja “para sempre”.

Sinto tanta saudade de quem eu era: um romântico incurável, que acreditava no amor, aquele amor que tudo supera, que tudo vence – forte como a morte! Acabei me cansando do amor recíproco e infeliz. No fundo, sei que sou covarde e frustro meus próprios sentimentos. Como queria ter a coragem de antes e ir domar aquele sorriso e arrancar daqueles olhos lágrimas de prazer e felicidade. Acabou; não sou mais o mesmo. O máximo que sinto hoje é inveja dos casais que vejo na praça. Tento disfarçar vendo a imagem de “melhor só que mal acompanhado”. 

Bom, o máximo que posso fazer agora é fotografar aquele sorriso e eternizá-lo na memória, sem dor, sem expectativa frustrada. Na minha cabeça, o amor é mais simples, mas o mundo aí fora esfola e tenta curar a ferida com limão. Era isso, precisava falar daquele sorriso. Não posso dizer seu nome, mas só gostaria de falar do seu sorriso. 



Edvar Santos