Um amor meio bosta

16/11/2016 07:23:01

Flavio Sousa


Acho que estou me repetindo, mas encontro consolo em Nelson Rodrigues: “Jornalismo é redundância”. Afinal, escrevo e você nunca entende, nunca presta a atenção. Então vamos falar de amor? Sim, vamos falar de amor! Não do amor verdadeiro, do amor que dá frio na barriga e calor na bacurinha. Vamos falar do amor meio bosta! Todo mundo já teve um amor meio bosta, não é verdade? Um sentimento que chamamos de amor – só que não é – que nem dá tesão, nem dá calor no coração ou frio na barriga; é simplesmente assim, meio chocho...

Gosto do amor romântico: recíproco e infeliz. Mesmo que ele carregue consigo um caminhão de mazelas prontas, pelo menos é intenso, visceral, ardente e, por que não, verdadeiro. Em nossos tempos diluídos é comum as pessoas buscarem por amores menos avassaladores, pois somos fracos e frágeis, e sofrer por amor não está na moda. É por isso que colecionamos uma penca de amores meio bosta. Tudo isso pra quê? Simplesmente para eliminar o fantasma da solidão. A própria companhia, no mundo moderno, é insuportável.

O Netflix é legal, mas se der para transar depois de assistir a uma serie qualquer é melhor, não é verdade? Na maioria das vezes, o amor meio bosta serve pra isso mesmo. Acho que é cult para nós dizer que rolou uma trepadinha depois de um filminho – mesmo que tenha sido horrível e insosso...

Por falar em coisa sem graça, ontem uma amiga me disse estar interessada em um carinha que ela classificou como “inocente”. Tipinho meio pamonha e medroso. Normalmente, esse não chamaria a atenção dela, mas como ele a ignorou e ainda por cima confessou o medo, a coisa se transformou quase num fetiche. O problema é que mulher é uma alma complexa — não é no sentindo pejorativo, meninas— e o boyzinho não entenderia isso.

               

Nelson Rodrigues já disse que um homem com 18 anos não deveria nem cumprimentar uma mulher. Para entender a complexidade da alma feminina, basta olhar para o seu orgasmo. Nele está contida sua essência. Para fazer uma mulher gozar é preciso leveza, às vezes violência, às vezes indiferença gélida, às vezes amor sincero, ou simplesmente sexo sujo, melado e barato. Aqui estou parafraseando o filósofo Luiz Felipe Pondé, grande entendedor da alma humana.

Os dois não ficaram, mas se alguma coisa acontecesse, esse seria um bom exemplo de caso/rolo meio bosta. Estava na cara que não renderia nada, no entanto, a coisa partiu de uma motivação pessoal, ou de uma provocação, melhor dizendo. Seria uma verdadeira perda de tempo e de prazer. Bauman diria que minha linda amiga estava apenas exercendo a liquidez de sua escolha, mas isso não vem ao caso. Para mim, o nome disso é carência. Por carência a gente faz qualquer coisa – inclusive ficar com quem não temos a menor compatibilidade.

Lembro-me de trecho de um famoso poema de Vinicius de Moraes que dizia: “Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure”. Bom, pelo menos ele está falando daqueles amores onde a coisa é intensa, forte, quente, escaldante, mas vai acabar. O problema é que começamos a confundir o que disse o poeta. Acho que Vinicius não viveria um amor meio bosta. É permitido ter quantos casos/rolos temporários quiser, mas penso que não deveria ser meio bosta. Tem que valer a pena; tem que compensar o esforço.

Quem sabe o amor meio bosta não seja fruto da indústria do divertimento, assim como previa o filósofo Blaise Pascal há séculos? A busca desenfreada por uma companhia, porque não suportamos a nossa própria, o incentivo irracional por “relacionamentos livres”, ou coisas do tipo, parecem-me coisas de gente sem noção e que não vive nesse mundo. O amor meio bosta não é um mal só para você, é um mal para o outro que pode não estar na mesma sintonia e acabar te amando de verdade...

A modinha do momento são os chamados “contatinhos” – só Deus ou o Capeta sabem dizer o que é isso –, mas quantos deles são meio bosta? Você pode estar apenas dentro de um fenômeno de consumo e nem se dar conta disso. Amor meio bosta, nunca mais! Que seja para sofrer, amar, ou gozar, mas meio bosta jamais!



Edvar Santos