Suicídio: é possível prevenir!

26/07/2016 22:38:03

Esequias Caetano | [email protected]


No início do ano a mídia e a população patense voltaram sua atenção a um tema complexo e delicado de ser abordado, o Suicídio. Foram produzidas diversas matérias sobre o assunto. Com o passar dos meses, porém, o problema começou a cair no esquecimento, e em seu lugar, emergiu o “estupro”, que sacodiu ainda mais os ânimos das pessoas. Isso até a última semana, quando foi preso o acusado de cinco das várias ocorrências de abuso sexual notificadas às autoridades, e então, foi a vez deste assunto sair dos holofotes.  Com isso, os olhares se voltaram mais uma vez ao elevadíssimo índice de autoextermínios ocorridos no município, e consequentemente, o assunto voltou a ganhar destaque no noticiário. Foram 18 casos desde o início do ano, e só na última semana, três pessoas tiraram a própria vida.

                                                          

A questão que proponho no artigo de hoje, é: como compreender números tão aterrorizantes? O que leva alguém a se matar? Desde já, adianto que a busca por esta resposta não é tarefa fácil, e por mais que eu tente, jamais conseguiria abarcar todo o universo de possibilidades que poderiam explicar o fenômeno. O suicídio é multideterminado, e tudo o que se pode fazer em um manuscrito como este é traçar algumas hipóteses baseadas nas pesquisas disponíveis sobre o assunto.

Antes de abordar os aspectos específicos e situacionais que podem predispor uma população a um aumento no índice de autoextermínios, é relevante entender como se sente uma pessoa que pensa em suicídio. Para tanto, vale recorrer ao que nos diz Marsha Linehan, autora do tratamento mais eficaz da atualidade para pacientes em risco de tirar a própria vida, a Terapia Comportamental Dialética. Ela explica que:

“Os comportamentos suicidas e outros comportamentos impulsivos e disfuncionais geralmente são soluções desadaptativas para o problema do afeto negativo avassalador, incontrolável e intensamente doloroso. O suicídio, é claro, é a maneira final de mudar o próprio estado afetivo”

Dito em outras palavras, uma pessoa tenta (ou comete) suicídio quando está experimentando um sofrimento insuportável (“avassalador, incontrolável e intensamente doloroso”), para o qual nenhum outro recurso, nenhuma outra estratégia, foi capaz de produzir ao menos alívio (“o suicídio, é claro, é a maneira final de mudar o próprio estado afetivo”). É, portanto, uma atitude de desespero, uma atitude que alguém toma apenas quando já não percebe mais nenhuma alternativa.

Chamo a atenção para a palavra “percebe”, do parágrafo acima. Dou destaque a ela porque ainda que esta seja, realmente, a forma de pensar e ver as coisas da pessoa suicida, isso não significa que realmente não há alternativas ou que não há soluções. As alternativas existem, e de fato, a pessoa em sofrimento precisa descobrir como acessá-las. E é este o trabalho que o Psicólogo e o Psiquiatra fazem: eles ajudam a pessoa em sofrimento intenso a encontrar alternativas para aliviar a dor, para que consigam voltar a ver sentido na vida. Não se trata de aconselhar – conselhos não são tão eficazes! -, mas de desenvolver recursos pessoais, habilidades, para 1) mudar o que pode ser mudado, resolvendo os problemas na medida do possível, e 2) sofrer menos com aquilo que não pode ser mudado e, por fim, 3) construir uma vida de qualidade, que realmente valha a pena ser vivida.

A maior dificuldade, neste sentido, é levar ao tratamento a pessoa que precisa dele. Em muitos casos o nível de desesperança já é tão grande que essa pessoa sequer tem energia ou motivação para buscar ajuda profissional. É compreensível – afinal, como explica Murray Sidman em seu livro Coerção e suas Implicações, uma pessoa tenta tirar a própria vida quando tudo mais falhou, e neste ponto – quando tudo falhou –, é natural que essa pessoa já se sinta desmotivada de continuar tentando, ou ainda, acredite que não vai dar certo (ela deve estar cansada de tentar). Se for o caso, a saída é buscar ajuda profissional mesmo acreditando que não vai dar certo. O que há a perder?

Quem não tem condições de buscar por um profissional em uma clínica particular, pode obter ajuda das seguintes formas:

- Em situações de EMERGÊNCIA (aquelas em que o risco é imediato ou quando já houve a tentativa, nas quais há necessidade de receber medicação para alívio emergencial da dor ou salvar a vida):

- UPA (em situações de crise, nas quais o sofrimento está insuportável)

- Corpo de Bombeiros – Telefone: 193 (Encaminhará à UPA para atendimento emergencial)

- SAMU – Telefone: 192 (Encaminhará á UPA para atendimento emergencial)

- Amigos da Vida: Telefone: 141 (Fará acolhimento e, em seguida, orientará sobre como buscar outros recursos)

Para realização do tratamento (melhora na qualidade de vida, redução na vontade e motivação para suicídio, desenvolvimento de recursos para lidar com os problemas que levam à vontade de morrer)

- CAPS (Centro de Atenção Psicossocial)

- Clínicas escola do UNIPAM ou da FPM

- Clínicas Populares da cidade (atendimento psicológico a preço simbólico ou baixo custo)

- Obtenção de encaminhamento para tratamento pela rede pública de saúde:

- CRAS (Centro de Referência em Assistência Social, que fará o encaminhamento ao atendimento especializado)

- CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social, que também fará o encaminhamento ao atendimento especializado)

- Posto de Saúde do bairro 

 Neste ponto, já sabemos que quem tenta suicídio encontra-se em uma situação insuportável, na qual já não percebe mais alternativas (embora elas existam). Sabemos, também, como buscar ajuda. No entanto, falta dizer: que condições levam uma cidade como Patos de Minas a números tão aterrorizantes? O que leva uma pessoa a se matar?

Diversos estudos apontam a relação entre crise financeira, elevação da taxa de desemprego e aumento nos índices de suicídio. O assunto já foi tema de reportagens em diversos noticiários brasileiros, com fácil acesso pelo Google. E a relação é fácil de ser compreendida.

Quando uma família passa por dificuldades financeiras, sejam geradas por uma ampla  crise econômica como a que estamos vivendo, ou pelo desemprego de um de seus integrantes, ela acaba sendo obrigada a abrir mão de uma série de atividades que proporcionavam lazer e bem estar (passeios, internet, viagens, saídas com amigos, etc) a seus membros, e ao mesmo tempo, é exposta a fatores de estresse difíceis de serem controlados – endividamento, dificuldades para arcar com despesas essenciais (alimentação, aluguel, água, luz, telefone, escola, etc). Como efeito, a ocorrência de sentimentos positivos diminui, e a ocorrência de sentimentos negativos aumenta. A situação tende a ficar cada vez mais difícil. Conflitos começam a ocorrer, marcados principalmente por cobranças entre os membros da família, críticas, desconfianças, que tem como resultado um aumento ainda mais rápido dos sentimentos negativos. Com o passar do tempo, a situação se torna cada vez mais insuportável. E isso se aplica tanto a famílias “mais ricas”, quanto a famílias “mais pobres” – cada uma em sua realidade.

Se a situação de dificuldade financeira e desemprego se soma a outros fatores, como doenças de qualquer natureza, lesões, perda de entes queridos (familiares, amigos...), términos de relacionamento, aposentadoria, problemas de relacionamento em outros campos da vida (com amigos, familiares, conhecidos, ou no trabalho – caso a pessoa não tenha perdido o emprego) ou exposição a estressores em outros campos da vida, o risco é ainda maior.

A esta altura, você pode estar se perguntando: mas muita gente passa por situações assim e não se mata! Por que alguns se matam?

As palavras chave para responder à questão, são: incontrolabilidade, acúmulo de situações e tempo de exposição.

- Incontrolabilidade diz respeito aquilo que já comentamos no texto: a pessoa já não tem mais recursos para lidar com a situação, nada do que ela tentou deu certo, então, ela acaba desistindo.

- Acúmulo de situações significa: quanto maior a quantidade de fatores estressores uma pessoa acumular na vida, maiores são os riscos. Uma pessoa que chega a pensar em suicídio, portanto, não passou apenas por uma ou outra das situações descritas acima, mas por várias delas.

- O tempo de exposição, por sua vez, se refere à continuidade do sofrimento: a maioria de nós enfrenta problemas e sofre, mas também passa por momentos de paz e tranquilidade. Uma pessoa que não tem estes momentos, ou os tem em quantidade e qualidade insuficiente, não tem tempo para se “reenergizar” e o sofrimento acaba se acumulando. Metaforicamente, isso equivale a ver a casa sendo destruída por um furacão, tentar reconstruí-la e vê-la sendo destruída novamente antes de ficar pronta, várias e várias vezes.

Para finalizar, é importante frisar mais uma vez que o suicídio ocorre em situações extremas de sofrimento, e se os índices de Patos de Minas estão tão elevados, temos um sinal claro de que a população patense tem tido baixa qualidade de vida e níveis elevados de estresse e sofrimento. Neste sentido, é importante trabalharmos para mudar a situação, obter mais qualidade de vida e reduzir a vulnerabilidade ao sofrimento. Tratarei deste tema no próximo artigo! Até lá (e depois disso também), vamos trabalhar para que as alternativas para quem busca ajuda se tornem cada vez mais conhecidas. De acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), 9 de cada 10 suicídios poderiam ser evitados se as pessoas tivessem recebido ajuda.  Em certa medida, cabe a nós divulgar os recursos disponíveis e facilitar o acesso destas pessoas a eles. Conto com vocês!

ATENÇÃO: confira também esta matéria sobre como identificar uma pessoa em risco de suicídio



Guilherme Camargos